terça-feira, julho 29, 2003

maria!...MARIA!....anda cá ber isto...

maria!...MARIA!....anda cá ber isto...

o que é home!...

é os toiros, estom a matá-los cuma ispada

há pois toum!!!...som uns selvajes estes barranqussos...

num sum nada...olha lá bem...até é bem boneito...é cum arte...carago!
(diz o sr. manuel afifando-se do comando do televisor)

(o som do tele. está no máximo)

ai eu este ano quero ir a barruncos, ai bou bou...(diz manuel sem
pensar)

ó MANEL...MUDA LÁ ISSO

NUN MUDO!

(manuel baixa o som e fita maria com um ar seríssimo, quase a
rebentar...)

entom já biste que temos as crianças em caja, e sêles bêm isto...(dis
a d. maria com um ar preocupado...)

num intressa é p´ra berem cumé que as coizas soue...

ai balha-me nossa senhoura quisto é uma barbarid..(d. maria é
bruscamente interrompida no seu discurso)

CÁLA-TE senum lebas já uma lambada!....diz furiosamente manuel

(d. maria retira-se para não provocar uma crispação desnecessária, ela
sabe que a corda rebenta sempre pelo lado mais fraco...mas sabe também
que a casa não funciona sem si... a bem da paz podre, retira-se)

meninos! benhum cá ao bô!

tum a ber é achim que se mata um toiro, é bonito num é? ...pergunta
manuel ás crianças que haviam acabado de chegar...

(temos que explicar ao leitores que as crianças foram educadas na
cidade, sabem perfeitamente o que significa espetar-se com uma lâmina
no pescoço de um animal!)

não avô, o que tu estas a ver é dos espectáculos mais cobardes e
crueis que a humanidade alguma vez inventou, só comparável ao circo
romano ou ao fotebol azteca... e digo te mais avô, gente como tu devia
ser internada num hospício para doentes de bronquite aguda. (diz o
mais pequenito dos netitos ao avô)

o qué que estás prá í a dijer, senta aqui no colo do bô, que o bô
bai-te enchinar a aprechiar a toirada...

tal nunca aconteceu, (o puto cuspiu na cara do homem levando como
resposta uma lambada que lhe partiu o maxilar)



moral da estória:

coisas sem moral não têm moral.

liga agora!

liga agora!

está feito...

puto! já somos produtores de energia, bora fazer outro!

um mês depois, algumas peças de ferro-velho mais tarde...

dá-lhe!

já está...

he! he! he!...isto é lindo!

henrique observa os manómetros recem montados, aproveitados de uma
sucata das redondezas, e diz:

joão, outro já!

é pá tem calma, tu já estás é a ficar viciado nisto!....diz henrique
sorrindo...

os nossos heróis estavam a descobrir o futuro, estavam a montar, ainda
que duma forma arcaica, geradores heólicos, máquinas de fazer dinheiro
limpo (para leigos)...

joão e henrique são dois irmãos unidos, daqueles que não fazem nada
sem consultar o outro.
à dois meses atráz joão andava na internet a ver umas coisas (nada de
concreto como sempre) e qual não foi o seu espanto quando se deparou
com algo que imediatamente lhe chamou á atenção...(é importante que se
diga que joão usa sempre o pesquisador nacional, uma ferramenta de
pesquisa desenvolvida pelo estado que permite evidenciar páginas que
tenham directamente a ver com áreas de interesse nacional, uma forma
de dar ideias ás pessoas... como os governantes gostam de dizer...só
esta ferramenta é responsável por metade da riqueza produzida no
país...o motivo é simples: as pessoas deixaram de abrir cafés e
passaram a usar a cabeça para pensar!...claro, os correios portugueses
tornaram-se no padrão para correios no mundo, e a tap saíu da
falencia...)...uma página que falava, que respondia ao seu problema:
falta de dinheiro!...o tema era tratado com tanta simplicidade que
qualquer um, ao ler, mesmo que superficialmente, ficaria com a
impressão de conseguir montar a coisa.
e a coisa não era mais que um gerador heólico feito com peças de
sucata...um alternador...uns carretos de caixa de velocidades de
automóvel...coisas que o sucateiro quase lhes pagou para ver-se livre
delas...resultado, por menos de vinte contos, os nossos amigos fizeram
duas máquinas de fazer dinheiro limpo!
claro isto só é possivel porque a companhia da electricidade é
obrigada a comprar energia produzida desta forma...nesta época pré
fusão fria...

henrique! já estou a pensar num modelo novo optimizado, muito mais
silencioso...olha lá o desenho:

joão mostra ao irmão um esboço a carvão numa folha meio encardida...

isso está giro!...e achas que funciona?

claro!...já sou quase um expert na construção de geradores!

pois...mas este vai ser mais caro, ou não?

ummm talvez não, se tivermos sorte na sucata....


mais uma ida ao depósito de material abandonado, umas marteladas mais
tarde...

lindo de se ver...

e de se ouvir...

sabes mano este ainda produz mais que os outros...incrivel!...estás um
génio da construção verde!...diz henrique observando o indicador dos
ampéres..ou dos volts!


heee! não exageres, ainda tenho muito para aprender...

não tarda muito e temos uma fábrica deles!

olha!...nada mal pensado...

joão é um macgiver á portuguesa, aliás é um portuga de gema,
desenrrasca-se em qualquer situação, não tem é grande queda para o
negócio, a menos que seja sem fins lucrativos...lol...
já o irmão é um industrial de t-shirt...em tudo vêm uma oportunidade
de ganhar uns cobres...mas como nunca se deixou domar pela trupe dos
engravatados nunca foi "longe" na vida... nem na vodka por sinal...

com este já podemos ligar a televisão sem prejuízo...

se queres que te diga já nem lhe sinto a falta...ir pá cama cedo é que
é bom...agora é que vejo a diferença...

sou obrigado a concordar contigo...mete no canal 1

olha é aquele programa excelente, o 2010!

o quê!...não acredito...é o site onde eu vi os geradores!...deixa
estar!...

claro que deixo!...não podemos perder isto...

uns minutos mais tarde...

joão e henrique estão ciderados na televisão, completamente
hpnotizados pelas imagens brilhantes...

a televisão mostrava imagens de um gerador produzido em portugal,
chamava-se "gerador de massas", trata-se de um projecto elaborado por
especialistas ao serviço do país, empenhados na ideia de proporcionar
a cada português uma fonte extra de rendimento a um custo reduzido
para o ambiente...

é claro!...se cada casa tivesse uma coisa destas no telhado!

uma ou duas!

claro!

já viste mano...acabava-se com a poluição das centrais a carvão e
petróleo....

acabava-se também a mama da companhia da luz...diz henrique
pensativo...ah! com o que já ganharam podem perfeitamente
restruturar-se, diversificar filosofias...digo eu...

...só não fazem se não quizerem!

tambem acho!....olha ouve!

as imagens sucediam-se na televisão, caras sorridentes falavam dos
seus projectos, pessoas comuns falavam das suas experiencias piloto,
mas tudo isto é interrompido por uma cara séria que fala por todos
nós, o chefe do país...o homem que viu o futuro e não teve medo de o
agarrar.

o estado, está neste momento em condições de proporcionar a cada um
que queira, a possibilidade de produzir e vender energia eléctrica,
propomos aos portugueses um sistema em que em troca de um gerador de
baixos custos, totalmente produzido no nosso país, o contribuinte terá
apenas que comprometer-se a fazer a manutenção do equipamento e a
dispender de metade do lucro que obtiver para pagar o gerador. quando
a máquina estiver paga será propriedade do contribuinte, e o lucro
será inteiramente para o proprietário.
As inscrições estão abertas!


já viste isto!

vamos inscrever-nos!

é já!


moral da estória:
a estória ainda agora começou...

Toni, um país que foi para o mar, mas que um dia teve saudades de casa...

Daquela coisa sopravam as réstias de vida que o seu decrépito corpo
ainda podia conter, um passo pesava mais que o empurrar de um camião,
no entanto aquele saco de pele não pesava mais de 50 quilos, dos quais,
metade eram ossos partidos pelas esquinas da vida...

o sol a chuva, o frio, o vento, nada mais eram que nada, quando
comparados com a dificuldade de conseguir ver um metro frente do
nariz...

toni já fora um campeão, já tivera o mundo a seus pés, agora levava
com os pés do mundo, do orgulho muito menos que saudade restava, não
por uma real melhoria nos tão badalados principios morais, mas por
falta de memória, a memória que a droga lhe levou.

ao longe pareciam lembranças boas, fugazes luzinhas flashantes que lhe
alentavam o espirito, velinhas acendidas no tempo das vacas gordas, o
tempo em que toni teve orgulho de si, e em que todos se curvavam a
seus pés.

.......

20 anos antes...

sentado na borda da doca, olhando o mar, sentindo o sol, lá estava o
nosso campeo a sonhar...

- capitão!...a que horas zarpamos?

-tem calma toni...quem manda é O MAR...

-o mar capitão?

-sim toni, temos que deixar a maré subir, seno encalhamos logo
ali...estás a ver aquele banco de areia?...

não, é tudo azul!...
-
-pois , mas ali frente está um azul mais claro, estás a ver?

-sim, vejo!

-quando aquele azul ficar escuro, partimos!

-certo capitão!

-toma, deves estar com fome...

...e de facto ao ver aquele apetitoso pastel de belém, toni lembrou-se
da fome que tinha....o mar tinha-o distrado, levando-o a sitios
dentro de si, que nem ele sabia que existiam...

-obrigado capitão!

-sempre ás ordens toni!

em duas horas já o azul se uniformizara, já as gaivotas tinham
voltado, já toni tinha partido...
duas horas foram suficientes para que a fome tivesse voltado e o sol
se tivesse posto...e em dois meses toni j estava no outro lado do
mar...

brasil, terra do sonho...

uma multido esperava o barco, era toni que vinha a bordo, a coisa não
era para menos, toni era um famoso lutador de luta livre, um dos
poucos com mais musculo por dentro que por fora, um dos poucos com
sentido de humor, com compaixão pelo adversário...talvez fosse por
isso que causava tanta indifrença fingida nos homens e tanta
temperatura nos ringues...toni tinha um estranho estilo próprio feito de
vontade de lutar e medo de ganhar...

-não sabe o quanto me faz bem ouvir as suas histórias sobre o mar,
espero ansioso por reencontra-lo, até volta capitão!

-foi um prazer viajar contigo toni, também fico tua espera!

...e toni lá foi recebido como que se de um rei bom se tratasse, se um rei
bom alimenta o corpo do seu povo, toni alimentava-lhes a alma,
dava-lhes o exemplo, existia...

...nem sequer vale a pena falar dos combates no brasil, a estória é
sempre a mesma...toni ganha o combate, convida o adversário para uma
jantarada e dá-lhe metade do prémio, afinal, como dizia toni:

- sem adversário não ha combate...lutar aprender, aprender
lutar...ou ainda...

é que nem vale mesmo a pena falar dos combates, nem mesmo daqueles em
que toni perdeu, pois nem aí ele perdeu a sua alma, as ilusões talvez,
mas nunca o sonho...

-toni!... é bom ver-te inteiro!

-umas mazelas capitão, mas nada que uns dias no mar não me façam
recuperar...

-é verdade meu velho amigo, o mar limpa tudo...mas sobe, vamos para casa...


...duas horas de conversa, dois meses de caminho foi o que bastou para
termos o nosso heroi de regresso a casa, muitas mudanças tinham
acontecido durante a sua ausencia, agora quem mandava era um tal que
já tinha sido ministro, um tal de salazar...já não havia espaço para um lutador como tóni...

Prototipo de politico perfeito

felizberto, homem honesto e de bom coração, recem empossado acessor de
qualquer coisa, ou qualquer coisa do genero, vê-se na obrigação de
tirar uns diasitos de férias, ele não queria, pois ainda se sente com
força para continuar o seu novo trabalho...mas como o sol quando nasce
é para todos, lá terá que ser...

em casa com a mulher e filhos comenta:

ó...felizmina, o que é que tu achas de aproveitarmos estes diasitos
para dar-mos uma volta pelo país?...alugamos uma autocaravana, uma que
dê para os miúdos estarem á vontade, levamos um farnelsito, o que é
que tu achas?

eu acho uma excelente ideia, sabes beto, já começo a estar farta das
férias no algarve, aquilo é sempre a mesma coisa, filas para tudo e
mais alguma coisa, já quase nem se consegue lugar para por as toalhas
na praia, eu acho muito bem...

emquanto a sra. falava, o nosso homem observava a sala tentando
lembrar-se do sitio em que tinha visto o mapa de portugal pela ultima
vez...fazia bastante tempo que não lhe pegava, decerto que faltariam
estradas, mas como o objectivo era um passeio pelo portugal esquecido,
serviria prefeitamente...


está aqui!...

felizberto desembrulha o mapa levantando uma nuvem de pó, tosse duas
vezes e exclama.

é desta que faremos umas grandes férias, vais ver!


enquanto felizberto procurava o mapa, felizmina alcança uma caneta de
sublinhar verde fluorescente...


os dois sentam-se na mesa da sala observando o mapa...


sabes, esta ideia tem uma razão de ser, quero ver com os meus olhos
como vivem as pessoas do nosso portugal, quero compreender o que
realmente precisam, o que sentem...

sempre o mesmo felisberto...foi por isso que me casei contigo,
adoro-te meu querido...(diz felismina passando a mão sobre a mão do
marido)

felisberto retribui o carinho com um beijo na testa da mulher...e diz:

temos duas semanas, queres começar pelo norte ou pelo sul?

o que é que achas melhor?

bem, o sul já está mais ou menos conhecido, já temos feito férias no
alentejo, penso que desta vez poderiamos ir direitinhos a bragança, e
depois logo começamos calmamente a descer...

felismina na sua simplicidade desconcertante de mulher põe o dedo
sobre lisboa e começa a tarçar o percurso com cada vez maior
entusiasmo.

uuummm...porque é que não subimos pelo litoral,
lisboa...peniche...nazaré...figueira...aveiro...porto...

estou a ver a tua ideia, acho bem, mas penso que poderiamos divagar um
pouco mais, lembras-te dos nossos bons velhos tempos de yuppies,
aqueles passeios sem destino, aquelas viagens de pura contemplação?

se lembro, e daquela vez que nos perdemos no gerês...felismina solta
uma gargalhada...água não nos faltou, e as estrelas, lembras-te?

é das melhores memórias que guardo, o nosso miguel nasceu nove meses
depois!

seu malandro, só pensas nisso...

não, estava a brincar contigo...e beija a mulher na boca (um pequeno
xoxo, nada mais!!!)

foram grandes tempos, tinhamos tudo tendo muito pouco...

lá está o meu poeta a divagar...mas queres voltar ao gerês?

não sei, se der tempo...a minha ideia é ver como estão as coisas,
andar por aí um pouco á deriva, sem grandes responsabilidades, a
ideia é não chamar á atenção das pessoas, ainda não sou muito
conhecido, mas sabe-se lá ...quero voltar a viver como os mais pobres,
sentir os seus problemas na pele, ou o mais possivel...

queres ver a realidade para lá dos números...diz felismina sem
problemas...

exactamente isso!...quero misturar-me com as pessoas e viver como
elas, mesmo que só por quinze dias...

se queres que te diga, também já começo a sentir falta disso, parece
que a idade nos afasta dos outros, passamos a ver tudo como grandes
problemas, a mais infima coisita é logo uma dor de cabeça...

eu não o diria melhor...

acho que voltaremos pessoas diferentes, mas não tenho medo nenhum
disso...tenho medo é de me afastar do povo, isso é que é um problema
para um verdadeiro politico

e se te reconhecerem beto?

se me reconhecerem?....aaaa, não reconhecem um acessor não se mete
nessas aventuras, quem é que se lembraria disso?...mas olha, se me
reconhecerem cumprimento as pessoas como qualquer mortal que se preze!

acho que sim, também se queres que te diga estou cada vez mais farta
do proctocolo....é uma chatice...um saco!...como diriam os nossos
amigos brazucas...

é não só, e não só...diz felizberto com um olhar maquiavélico.

eu bem digo que o trabalho não te está a fazer nada bem, é preciso
muita frieza, e tu não a tens, por um lado ainda bem...

tambem sinto isso....que seja uma fase...mas o proctocolo é
necessário, já viste o que era se as pessoas percebessem que nós
somos iguais a elas?...qualquer um quereria ser ministro!

felismina ri-se pois sabe que o marido está a brincar...

a viagem, isso agora é o que interessa...

vinte minutos depois o caminho está marcado, ao longe parece um oito
traçao sobre o país, se calhar é mesmo, mas talvez seja apenas uma
coincidência do destino, a viagem será feita sem um itenerário fixo,
havendo apenas alguns pontos de passagem obrigatória.
o casal ponderou cuidadosamente o roteiro, a ideia é poderem apreciar
a realidade sem auto-estradas sem facilitismos, sem modernices que
possam ofuscar a dureza do país rural.


e a viagem ainda agora começou...

que deus os ajude a ajudar-nos.

moral da estória:
a estória ainda agora começou!!!